Terapia Nutricional
O que é a Terapia Nutricional?
A terapia nutricional é um conjunto de procedimentos terapêuticos que visa manter ou recuperar o estado nutricional de um paciente. Ela pode ser aplicada em pacientes que não conseguem atender às suas necessidades nutricionais e metabólicas, como aqueles que estão internados, com infecções, trauma, doenças ou que passaram por cirurgia.
A doença aterosclerótica é altamente prevalente e possui uma evolução silenciosa, o que a torna especialmente perigosa, pois, quando se manifesta, pode ser fatal. Essa alta prevalência pode ser explicada pela incidência dos principais fatores de risco associados ao seu desenvolvimento, como hipertensão, obesidade, diabetes mellitus, níveis elevados de colesterol total e LDL-Colesterol, tabagismo, baixo nível de HDL-Colesterol e sedentarismo.
Os hábitos alimentares são importantes indicadores de risco para doenças cardiovasculares, pois o consumo excessivo de colesterol e gorduras (saturadas e trans), aliado à ingestão insuficiente de fibras, contribui para o desenvolvimento de dislipidemias (como o aumento do colesterol total e LDL-C, elevação dos triglicerídeos e redução do HDL-C), além de estar associado à obesidade, diabetes mellitus e hipertensão.
O controle efetivo das doenças cardiovasculares depende principalmente de sua prevenção e do manejo adequado dos fatores que contribuem para sua progressão, por meio de mudanças no estilo de vida. Isso inclui adotar hábitos alimentares saudáveis, praticar exercícios físicos regularmente, interromper o consumo de tabaco, moderar a ingestão de álcool, entre outras medidas.
Aspectos nutricionais:
Estudos científicos demonstram que uma dieta rica em gorduras aumenta os níveis de colesterol e a incidência de doenças ateroscleróticas. A gordura saturada (encontrada em produtos de origem animal, como leite integral, carnes gordurosas e manteiga) e as gorduras trans (presentes em margarinas, sorvetes, pães e frituras industriais) são responsáveis por elevar o colesterol total e LDL-C, sendo ainda mais prejudiciais, pois a gordura trans também reduz o HDL-C, o colesterol "bom".
O colesterol dietético, presente apenas em alimentos de origem animal, também pode influenciar o colesterol sanguíneo, embora em menor grau. A ingestão excessiva de gordura saturada e trans é a principal causa alimentar do aumento do colesterol.
A Associação Americana do Coração recomenda que a gordura total da dieta represente entre 25% e 35% das calorias diárias, com limitações específicas para cada tipo de gordura. A gordura saturada não deve exceder 7%, as poli-insaturadas (Ômega 3 e 6) até 10%, e as monoinsaturadas até 20% das calorias. O colesterol dietético não deve ultrapassar 200 mg por dia.
Além disso, para manter um controle adequado dos níveis de colesterol, recomenda-se:
- Carne vermelha: até 200g por dia, 3 vezes por semana, preferindo cortes magros.
- Frango ou peru: sem pele, até 200g por dia.
- Peixes: todos os tipos são aceitáveis.
- Ovos: até 2 vezes por semana, incluindo preparações.
- Leite e derivados: desnatados ou desengordurados.
Em indivíduos de alto risco (como portadores de diabetes, doenças cardiovasculares e múltiplos fatores de risco), as recomendações são mais restritivas, com exclusão da carne vermelha e consumo limitado de frango, ovos e leite.
Gorduras insaturadas
As gorduras insaturadas incluem as séries ômega 6 (linoléico), ômega 3 (linolênico) e ômega 9 (oléico), sendo respectivamente poliinsaturadas e monoinsaturada. A substituição de gorduras saturadas por gorduras poliinsaturadas reduz o colesterol total e LDL-C, mas também pode diminuir os níveis de HDL-C. Já as gorduras monoinsaturadas reduzem o colesterol sem afetar o HDL-C.
As principais fontes de gorduras monoinsaturadas são o azeite extra virgem, azeitona, abacate, oleaginosas (como castanhas e nozes) e óleo de canola. Estas também podem reduzir os níveis de triglicerídeos. Já as gorduras poliinsaturadas ômega 6 são encontradas em óleos vegetais (exceto óleo de coco, cacau e palma), e o ômega 3 está presente em óleos de canola, soja, linhaça, e peixes como cavala, sardinha, salmão e atum. As gorduras ômega 3 também ajudam a reduzir os triglicerídeos e a prevenir tromboses.
Apesar de seus benefícios, o consumo excessivo dessas gorduras pode levar ao aumento de peso. Portanto, é essencial que a dieta seja acompanhada por um nutricionista para garantir a quantidade adequada desses nutrientes.
Álcool
O consumo excessivo de álcool é prejudicial para indivíduos com condições como hipertrigliceridemia, hipertensão, tendência ao ganho de peso, doenças hepáticas e pancreáticas. A Associação Americana do Coração recomenda que, caso haja ingestão de álcool, ela seja limitada a dois drinques diários para homens e um para mulheres. A Sociedade Brasileira de Cardiologia não apoia o consumo de álcool como estratégia de prevenção à aterosclerose. Recomendações: Para homens, até 720 ml de cerveja, 60 ml de bebida destilada (uísque, vodka, aguardente) ou 240 ml de vinho por dia. Para mulheres, a metade dessas quantidades.
Uva, Suco de Uva e Vinho Tinto
As uvas de coloração vermelho-escura são ricas em compostos fenólicos, especialmente o resveratrol, presente principalmente na casca. Esse composto, produzido pela videira como defesa contra fungos, está 20 a 50 vezes mais concentrado nas uvas vermelhas do que nas verdes claras e também no vinho tinto em relação ao vinho branco.
O resveratrol tem efeitos benéficos para a saúde cardiovascular, como a prevenção da oxidação do LDL-C, devido às suas propriedades antioxidantes. Além disso, possui ação anti-inflamatória e inibe a agregação plaquetária.
Esses compostos também são encontrados no vinho tinto e no suco de uva, mas o álcool presente no vinho limita o seu consumo.
Café
As substâncias cafestol e kahweol, presentes nos grãos de café, podem elevar os níveis de colesterol no sangue. Durante o preparo com água quente, essas substâncias são liberadas, ficando presentes no café não coado. Para minimizar esse efeito, recomenda-se o uso de filtro de papel, que retém essas substâncias.
Evite o consumo de café árabe (preparado com o pó cozido), café coado em coador de pano e café expresso, pois esses métodos não filtram adequadamente o cafestol e o kahweol.
Fibras
As fibras alimentares são classificadas em solúveis e insolúveis. As fibras solúveis, encontradas em frutas, aveia, cevada e leguminosas (feijão, grão-de-bico, lentilha e ervilha), ajudam a reduzir o tempo de trânsito intestinal e a eliminar o colesterol.
Já as fibras insolúveis, presentes em grãos integrais e vegetais folhosos (como alface, agrião, brócolis e chicória), não afetam os níveis de colesterol, mas aumentam a saciedade, o que auxilia no controle da ingestão de calorias.
A recomendação diária de ingestão de fibras para adultos é de 20 a 30g, com aproximadamente 25% (6g) de fibras solúveis.
Fitoesteróis
Os fitoesteróis são substâncias presentes exclusivamente em vegetais e desempenham funções semelhantes às do colesterol em tecidos animais. O principal fitoesterol é extraído de óleos vegetais. Uma dieta equilibrada, rica em legumes, verduras e frutas, fornece cerca de 200 a 400 mg de fitoesteróis por dia. A ingestão desses compostos ajuda a reduzir a absorção do colesterol alimentar, promovendo a diminuição tanto do colesterol total quanto dos níveis de LDL-C.
Soja
A soja está presente em diversos alimentos, como queijo (Tofu), leite, extrato, carne ou proteína texturizada, óleo, grãos, farinha e concentrado protéico. Estudos científicos comprovam que a substituição da proteína animal pela proteína de soja contribui para a redução do colesterol total.
Para que os produtos de soja tenham efeitos benéficos, é essencial que cada porção contenha pelo menos 6,25g de proteína de soja, pouca gordura total (menos de 3g), gordura saturada reduzida (menos de 1g) e baixo teor de colesterol (menos de 20mg). A recomendação é consumir 25g de proteína de soja por dia, o que equivale a 4 porções desses produtos.
Considerações finais
Modificar hábitos alimentares é um grande desafio para profissional de nutrição, pois geralmente são estabelecidas muitas restrições e orientações. Isto nem sempre agrada aos clientes que pela falta de tempo nos dias de hoje, utilizam com mais freqüência alimentos industrializados ou consomem lanches rápidos e muito calóricos, ricos em gordura saturada e gordura trans, colesterol, sódio, entre outros.
Associados a modificação alimentar, deve-se incorporar a prática regular de atividade física ao menos 30 minutos todos os dias. Vários benefícios estão relacionados aos exercícios, dentre eles podemos destacar a melhora dos níveis pressórios e hipertensos, a redução do peso corporal, um melhor controle do diabetes e a melhora do perfil lipídico, marcado pelo aumento do HDL-C e pela redução dos triglicerídeos.
O fumo passivo ou ativo está fortemente relacionado como fator de risco no desenvolvimento da doença cardiovascular. A nicotina do tabaco está envolvida diretamente no dano arterial, diminuição do HDL-C e aumento da formação de trombose. A suspensão do fumo reduz o risco destas alterações.
A manutenção de um estado nutricional adequado através de dieta individualizada e da educação nutricional juntamente com modificações no estilo de vida, associados ou não ao uso de medicamentos, são fundamentais na recuperação, no controle ou na prevenção de doenças.
Evelyn Peçanha Gutierrez
Nutricionista - CRN 2005101270